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O CHE RG é um grupo de investigadores da Universidade do Porto no âmbito do clima, saúde e ambiente, que conta com a coordenação da Professora Doutora Ana Monteiro do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal).

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projetos concluídos

 1993 O CLIMA URBANO DO PORTO - Contribuição para a definição das estratégias de planeamento e ordenamento do território.

Geografia Aplicada, Clima, Ambiente Urbano, Porto, Planeamento
Ana Monteiro

“Sem pretendermos transformar este trabalho numa expressão de nostalgia pelo Paraíso Perdido, gostaríamos de sublinhar, através dele, algumas das graves consequências resultantes do progressivo distanciamento efectivo do Homem relativamente ao seu suporte ambiental.

O sistema económico em que vivemos, baseado no lucro, transformou as cidades em componentes imprescindíveis, como suporte artificial para as "trocas" de bens, serviços e informações. Trocas, que não estão de acordo com o que se precisa, mas dependem apenas do que já se tem.

A manutenção deste tipo de relações só é possível graças a um diversificado conjunto de sólidas unidades de gestão dos sistemas económicos internacionais, como a CEE, a OCDE ou o Banco Mundial. Estas grandes organizações internacionais velam para que o sistema vigente funcione, isto é, que as trocas continuem a efectuar-se de acordo com regras impostas por quem detém maior número de recursos. Se nos fosse possível abstrair de toda a conjuntura sócio-económica e política em que vivemos e nos reduzíssemos à nossa humilde posição de mais um elemento do Ecossistema, veríamos que este tipo de instituições e sobretudo os objectivos que as justificam são incompreensíveis, desnecessários e geradores de "ruído" no Ecossistema. É precisamente o conhecimento desta nossa frágil posição no Meio Ambiente que nos assalta as consciências, individual e socialmente, e nos faz sentir culpabilizados pelos inúmeros focos de Fome no globo. Só o respeito pelo direito adquirido de posse dos recursos de uns, impede que outros satisfaçam uma necessidade básica - alimentação. Problema que outros elementos do Ecossistema resolvem de formas muito mais simples e harmoniosas.

As cidades, projecções integralmente artificiais no espaço das novas necessidades de troca de excedentes, permitiram ao Homem a maior possibilidade de controlar o seu habitat. Este controle, desencadeou e promoveu atitudes de progressiva irreverência relativamente ao Meio Ambiente. O suporte ambiental passou a ser visto como uma entidade "separada". Foi-se perdendo completamente a ideia de "coesão", a favor dum pretencioso conceito de imunidade dos homens face às consequências das suas acções6.

Quando apelamos exclusivamente à nossa sensibilidade intuitiva/primária, entendemos facilmente que a visão exageradamente antropocêntrica do Ecossistema, nos conduziu a conceitos de auto-suficiência, de demasiado optimismo e confiança na capacidade de controlar os processos físicos e biológicos. Perdeu-se a noção de limite e de equilíbrio subjacente a qualquer sistema aberto, como é o Ecossistema. Intuitivamente, por formação e porque sempre fomos mais um dos "operadores" de um ecossistema urbano, apercebemo-nos das várias "nuances" que ele tem sofrido nas últimas décadas.

As atitudes perante uma situação de risco, como aquele em que acreditamos se vive actualmente, são múltiplas e variadas. Pretendemos através desta acção individual, desencorajar a primeira alternativa de "não fazer nada" e contribuir para mostrar que é útil dotar os decisores, de elementos adequados, de forma a que as acções políticas, sociais e económicas, incluam, cada vez mais, a noção de um desenvolvimento sustentado no suporte ambiental disponível.

Acreditamos que é possível conciliar a liberdade individual com o bem comum e que, cada vez menos, a soberania nacional pode ser vista como oposta às preocupações globais com o Meio Ambiente ou que a qualidade de vida e bem-estar da presente geração não passam, necessariamente, por colocar em risco a geração futura. Pensamos com este trabalho contribuir, pelo menos, para diagnosticar o estado de algumas das componentes ambientais num determinado espaço concreto.

Repensando as relações - Homem-Meio Ambiente - do ponto de vista geográfico pretendemos tornar claro que urge assumir uma atitude menos irreverente e mais humilde, face ao suporte ambiental de que dependemos. Uma vez que as relações de dependência entre as várias componentes do Ecossistema são múltiplas e complexas optamos por tentar entender um pouco melhor o todo através de uma pequeníssima fracção.

A perspectiva reducionista da Geografia que propomos como filosofia de trabalho, não é senão aparente8. De facto, as hipóteses que iremos testar ao longo deste trabalho de investigação e que, basicamente, são a compreensão dos efeitos de uma cidade no clima regional e local e as consequências do comportamento de alguns elementos climáticos no metabolismo urbano não podem, nem devem, ser entendidas como o objectivo final deste trabalho.

Estas hipóteses servir-nos-ão apenas como instrumento para corroborar o argumento central de que, enquanto mais um elemento do Ecossistema, pouco ou nada beneficiaremos, se insistirmos na adopção de atitudes demasiado optimistas e imodestas quanto ao nosso papel no globo.

O climátopo portuense que adiante escalpelizaremos interressa-nos apenas enquanto parte integrante de um biótopo onde uma comunidade de seres vivos se relacionam.

Seleccionando da complexa e aparentemente caótica totalidade de interrelações, apenas esta ínfima parte, gostaríamos de demonstrar que é preferível assumir e compreender a nossa fragilidade no Ecossistema. Só conhecendo as nossas fortes relações de dependência relativamente ao suporte ambiental poderemos, com alguma eficácia, minimizá-las.

Partilhando com S.BOYDEN, a ideia que "... a cidade é um gigantesco animal imóvel, consumidor de vastas quantidades de oxigénio, água e matéria orgânica e excretor de dióxido de carbono, dióxido de enxofre, fumos, vapor de água e desperdícios orgânicos..." utilizaremos a poluição atmosférica -a acidez forte (SO2) e os fumos negros- como indicador do ritmo de interferência das actividades funcionais urbanas no clima da área e deste na concentração ou dispersão dos elementos injectados para a atmosfera.

O impacte na saúde, em especial no agravamento de algumas patologias, gerado quer pelo comportamento de alguns elementos climáticos, quer pela qualidade do ar, e, os prejuízos para o dinamismo urbano causados por alguns extremos de precipitação, serão o nosso veículo de retorno à ideia inicial de que, afinal, não somos imunes às consequências das nossas acções sobre o meio.”

 

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Bertrand